Diretório de Levadas do Daniel
Desenvolvimento histórico da Levada da Serra do Faial e levadas envolventes
Também conhecida como Historische Entwicklung der Levada da Serra do Faial und der umliegenden Levadas
Documentação histórica — não constitui uma recomendação atual de percurso pedestre. Ficheiro de origem em danishome.ch modificado pela última vez: 12 de junho de 2020
Zona
Ribeiro Frio/Nordeste
Nota preliminar
Se se estudam mapas e descrições das levadas em torno de Ribeiro Frio e ao longo da Levada da Serra do Faial, há uma confusão considerável quanto a nomes, percursos e atribuição histórica. Depois de estudar o Elucidario Madeirense, procuro por isso trazer alguma estrutura e clareza ao assunto. Neste contexto quero agradecer de coração aos Caminheiros Anonimos da Madeira pelas indicações e pelo apoio. A situação atual só se entende de facto se se tiver presente o desenvolvimento histórico das levadas.
A Levada do Furado é uma das levadas mais antigas da Madeira. Já no século 16 se fala de uma levada iniciada por Raphael Catanho. Trazia água, provavelmente, do Ribeiro Frio até às plantações de cana-de-açúcar de Canical. O problema era, ao que parece, a manutenção da levada longa, de modo que desvantagens como a perda de água e problemas constantes, como deslizamentos e queda de pedras, acabaram por pesar mais.
Em 1830 pensou-se em como abastecer com mais água as zonas férteis de Canico, Sao Goncalo e Santa Maria Maior. O engenheiro Adriano Trigo fundou uma sociedade com o nome 'Socieda da Nova Levada do Furado'. Aqui a Levada do Furado era referida pelo nome; ia do Ribeiro Frio a Lamaceiros e passava a água à Levada da Portela para regar as zonas em torno de Maiata e Porto da Cruz. Também se menciona a Levada do Juncal, que leva água da Ribeira do Juncal para Ribeiro Frio, usa o leito da Levada do Furado até Lamaceiros e, por um divisor de água em Lamaceiros, conduz a sua própria água até Lombo da Raiz e dali a Santo da Serra. Aí divide-se em 2 ramos e rega zonas em torno de Santa Cruz e Agua da Pena. Este princípio de uma captação própria e do uso do leito de outras levadas é muito importante também para a evolução posterior e para compreender a história.
A intenção da 'Socieda da Nova Levada do Furado' era levar água da Ribeira das Lajes até à Madre da Levada do Juncal e, no leito da Levada do Juncal e da Levada do Furado, ambas já na mão do Estado, conduzi-la até Lombo da Raiz e, numa levada ainda por construir, até ao Pico do Infante junto a Sao Goncalo.
Em 1840 o planeamento estava concluído, mas problemas financeiros e geográficos impediram a construção da continuação de Lombo da Raiz ao Pico do Infante. O prolongamento da levada da Ribeira das Lajes até à Levada do Juncal foi, porém, construído. Chamou-se a esta levada Levada dos Accionistas. Levava a água primeiro no troço recém-construído, depois no leito da Levada do Juncal e da Levada do Furado até Lombo da Raiz e igualmente até Santo da Serra. Aí, num divisor de levada, 1/3 da água era desviada para uma nova Levada Nova, que ia para Santa Cruz, e 2/3 da água para a Levada do Juncal existente, com os seus 2 ramos finais.
Em 1861 o Estado tomou a iniciativa e planeou a abertura de novas fontes e a continuação da levada de Lombo do Raiz ao Pico do Infante. Entre 1871 e 1905 construiu-se, por um lado, uma levada da Ribeira Seca à Ribeira das Lajes para obter novos recursos de água. Ao mesmo tempo construiu-se a continuação de Lombo da Raiz até às portas do Funchal. Da Ribeira das Lajes a Lombo do Raiz partilhou-se o leito já existente da Levada dos Accionistas, da Levada do Juncal e da Levada do Furado. No divisor de levada que já existia em Lamaceiros, a água da Levada do Furado era desviada para a Levada da Portela. No novo divisor de levada em Lombo da Raiz, a água da Levada do Juncal e da Levada dos Accionistas era separada em direção a Santo da Serra. A partir daqui a água corria num leito próprio.
Esta levada nova chamava-se Levada da Serra do Faial. As suas fontes eram a Ribeira Seca, as fontes da Ribeira da Ametade, as fontes entre a Ribeira Seca (Furado do Lapao) e o Pico da Nogueira (Lombo Furao), o Corrego da Choupana, a Correga da Cabra, as fontes da Rocha do Gavino e as fontes nos túneis de água abaixo de Feiteiras. O leito desde Ribeiro Frio até Lamaceiros é portanto usado por 4 levadas diferentes (ver também a Levada da Serra do Faial histórica).
A consequência da captação da Levada da Serra do Faial na Ribeira Seca foi o encerramento da Levada da Faja dos Vinhaticos, vital para Santana. Como compensação construiu-se, de 1860 a 1904, a Levada da Serra de Sao Jorge (Levada do Caldeirao Verde), com captação na Ribeira Grande na região do Caldeirao do Inferno.
Em 1930 construiu-se um ramo adicional até acima de Ilha
Até 1943 a situação em torno da Levada da Serra do Faial manteve-se estável. Todo o problema da distribuição da água pela Caixa Divisoria foi passando para segundo plano, porque todas as levadas envolvidas estavam na mão do Estado. Ainda assim, na minha opinião, é importante perceber como o princípio funcionava. Em 1943 foi aprovado o grande plano da Comissão administrativa dos aproveitamentos hidráulicos da Madeira, que incluía a construção adicional de novas levadas e a construção de centrais hidroelétricas. Com a abertura da Levada dos Tornos, da LevadaNova da Santa Cruz e da Levada do Canical, a Levada da Serra do Faial perdeu importância regional.
No mapa do IGeoE de 1966 os ramos finais da Levada do Juncal e da Levada dos Accionistas (Levada Nova) passam a designar-se Levada da Serra (da Santa Cruz) e têm um traçado um pouco diferente. Não sei exatamente o que aí se passou. Se esta Levada da Serra (da Santa Cruz) ainda é mantida hoje de alguma forma, entubada ou desativada, está fora do que eu sei.
Em 1970, com a construção da central da Faja da Nogueira, a situação na zona da Faja da Nogueira mudou de raiz. A Levada da Serra do Faial histórica foi cortada no Pico da Nogueira e, juntamente com a Levada Nova do Juncal recém-construída, ligada à câmara de carga da central. A Levada da Serra do Faial histórica foi portanto partida; ficaram o curso superior e o curso inferior, que porém já não era alimentado pelas suas próprias fontes no curso superior, mas pela água restante da Levada do Furado, da Levada do Juncal e da Levada dos Accionistas e pelos afluentes abaixo de Lombo da Raiz.
A Levada dos Accionistas continuou a funcionar de forma autónoma até ca. 1985; depois foi abandonada por a manutenção ser excessiva. Desde então um tubo da Ribeira das Lajes à Ribeira do Juncal, que corre no túnel da Levada Nova do Juncal e descarrega a água no leito da Ribeira do Juncal, abastece a Madre da Levada do Juncal com água adicional.
A designação das levadas na zona da Faja da Nogueira é, desde a construção da central, um pouco nebulosa e casual. A Levada do Pico Ruivo é na verdade apenas a levada no túnel do Pico Ruivo; o troço a partir da Ribeira Seca é e continua a ser a Levada da Serra do Faial. O nome 'Levada da Faja da Nogueira' ou 'Levada do Pico Ruivo' até à Ribeira da Faja da Nogueira é um pouco arbitrário, até porque depois da travessia do ribeiro volta a chamar-se Levada da Serra do Faial.
Os puristas das levadas também podem insistir em que a Levada do Furado, a Levada do Juncal e a Levada dos Accionistas têm na verdade, como segundo nome, 'Levada da Serra do Faial', mas pelo menos o termo Levada do Furado está hoje tão estabelecido que já não se imagina prescindir dele.
